Testemunho

tm"Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro."
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Miguel Torga
Diário XII

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O Douro é um território singular, com uma paisagem monumental resultante da acção conjugada do homem e da natureza. Aqui, as comunidades locais adaptaram-se às condições específicas do território, em muitos aspectos hostis à vida, transformando-as em factores de sobrevivência.

A construção da paisagem e o desenvolvimento de uma cultura regional centrada na vinha e no vinho, que fizeram do Douro a primeira região vitícola demarcada e regulamentada do mundo, não apagaram a força identitária dos elementos naturais. Do rio que atravessa a região montanhosa. Dos solos pobres e pedregosos das encostas de xisto. De um ambiente de feição mediterrânica, que se sente no aroma da vegetação autóctone, no microclima, quente e seco, do vale vinhateiro, que contraste com o das terras frias circundantes, nos ecossistemas que resistiram melhor à acção do homem.

O Douro, escreveu Miguel Torga, «é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.» (in TORGA, Miguel – Diário XII, 8.IV.1977. 2ª Ed. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 1332).

Gaspar Martins Pereira